Como a pandemia impacta a saúde mental da população?

E de repente algo que estava tão distante, chegou e movimentou não somente a sua vida, mas a minha, a do seu vizinho, do seu colega de trabalho; enfim, de milhões de pessoas ao redor do mundo. O estado de pandemia devido ao coronavírus foi decretado pela OMS e algumas perguntas que vem sendo feitas frequentemente são: quando isso tudo irá acabar? Quando tudo irá voltar ao normal?! Não aguento mais ouvir sobre testes, mortes e vacinas nos noticiários! Detesto usar máscaras. E assim sucessivamente, dia após dia, milhares de questionamentos. E o estresse cada vez mais descortinado e presente.

Percebemos nitidamente alguns seguindo à risca o que é recomendado pelas autoridades médicas. Outros?! Ah…outros, simplesmente insistindo em “fazer de conta” que “nada estava” ou mesmo “ainda está acontecendo”. E nesse “fazer de conta”, podemos observar principalmente no período de isolamento mais intenso, a pandemia escancarando o melhor e o pior das pessoas. Aqui não me cabe julgar o que é melhor e o que é pior. Por ser relativo e depender muito do ponto de vista de cada um. A reflexão que faço como psicóloga é que independente do ponto de vista que estamos habituados a enxergar, que nos caracteriza enquanto individualidade, nada permanecerá como antes. Embora seja natural querermos nos agarrar a velha rotina, a velhos padrões, a velhas crenças e hábitos. Afinal de contas, como um ser humano pode ser levado de uma hora para outra a mudar hábitos, passar por uma “crise” sem sentir nada? Isso é praticamente impossível. Até porque, obrigatoriamente fomos convocados a sair da nossa zona de conforto, do nosso “pão nosso de cada dia”. E enfrentarmos abruptamente novas mudanças em vários cenários. Sabemos o quão difícil é encararmos as mudanças. Afinal, mudar dói, não é tão simples. Demanda esforço, muita energia, autoconhecimento e motivação. E nesse sentido, cada um está procurando fazer o seu melhor. Pode parecer que o seu melhor não é o melhor do seu amigo, mas é o melhor que você pode estar dando ao mundo nesse momento. E esse ano de 2020 trouxe a todos nós, a grande oportunidade de refletirmos ainda mais e acolhermos amorosamente, as inúmeras lições que estamos tendo. O que estamos fazendo enquanto habitantes desse planeta, como também de que não vivemos sozinhos, estamos todos interligados como numa teia. Já não há muito espaço para pessoas egocêntricas. Pois a maneira que me comporto, impacto a minha família, meu entorno e consequentemente, a minha cidade. O quão é importante sermos solidários e empáticos nesse momento.

O corre-corre desenfreado que estávamos mergulhados, contribuía para deixarmos muita coisa para depois. Algumas vezes por preguiça, por falta de tempo, por acomodação, ou até mesmo por mecanismo de negação. A pandemia não trouxe apenas uma ameaça a nossa saúde, trouxe também uma série de mudanças na nossa rotina que consequentemente nos obrigou a ver e lidar com problemas que antes preferíamos ignorar. Afinal, não existe crise que não deixe marcas. A incerteza, a insegurança, a frustração, o medo da contaminação, tudo gera muita ansiedade, depressão e níveis altíssimos de estresse. Acompanhado por um grande impacto econômico, que afeta exponencialmente o mental das pessoas.

Nos deparamos com a necessidade de refletirmos quanto às nossas relações familiares. Até que ponto vale a pena continuar da mesma maneira, ou encarar o novo? Alguns passaram a se cobrar mais, quanto a dificuldade de trabalhar em regime home-office e ao mesmo tempo dar conta dos filhos e das demandas do dia a dia. Outros viram a frustração fazer parte de suas vidas, por perderem seus empregos ou não poderem trabalhar em suas ocupações. Já os profissionais da saúde, na sua grande maioria, passaram a sentir a Síndrome de Burnout bem de perto. Para muitos, a dificuldade foi viver sozinho e enfrentar a solidão. E outros, dificuldade mesmo, foi viver acompanhado, com todos os prós e contras das relações!

Paralelo a isso, com muito tempo livre ficamos mais sedentários. Sem atividade física, comprometemos o nosso físico, o nosso humor. E o sedentarismo aumenta proporcionalmente os níveis de estresse. Alguns dão Graças à Deus que não necessitam sair. Outros, ficam extremamente agitados, ansiosos, sentem muito tédio ou mesmo profundo desânimo. E nessa ambivalência, haja equilíbrio mental! Psicólogos e psiquiatras do mundo todo, observaram um grande aumento da demanda por tratamentos na área mental. Pessoas com quadro de depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade, viram seus sintomas agravados. Afinal, toda mudança abrupta gera uma sobrecarga mental.

Psicóloga Maria Luiza M. Nigro – CRP:08/05850.

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