Saiba que a resposta para essa questão está na neurociência, mais especificamente no complexo sistema cerebral. Cientistas da neurociência ressaltam que os hábitos surgem, porque o nosso cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço. Uma vez que o cérebro aprende um caminho para realizar uma determinada tarefa, ele irá na próxima vez, utilizar o mesmo caminho e não irá criar um novo se não for necessário. Dessa forma, se o nosso cérebro for deixado por conta própria, tentará transformar quase qualquer rotina num hábito, pois os hábitos permitem que nossas mentes desacelerem com mais frequência. Este instinto de poupar esforço é uma enorme vantagem biológica, uma vez que um cérebro mais eficiente, nos permite parar de pensar constantemente em comportamentos básicos, tais como andar e escolher o que comer e vestir, por exemplo. E com isso o cérebro passa a ter caminho livre para dedicar energia mental para fazer outras coisas em paralelo. Ele passa a ter mais foco para inventar casas, edifícios, sistemas de irrigação e inclusive trens, carros, navios, espaçonaves, dentre outros. No entanto, essa preservação cerebral é uma tarefa mental complexa e extremamente delicada, pois os nossos cérebros não podem desligar no momento errado, para que não deixemos de perceber algo importante. E o que seria algo de importância para o nosso cérebro? Algo que fosse na contramão da nossa preservação como espécie, enquanto ser humano, como um carro em alta velocidade quando saímos para a rua ou um assaltante escondido atrás de um poste. E quem controla isso no nosso cérebro? Os gânglios basais que são responsáveis por controlar e modular a atividade motora. Como também desenvolveram um sistema inteligente, para determinar quando devem permitir que os hábitos assumam o comando ou não. Os gânglios basais estão intrinsecamente relacionados com aprendizados referente a procedimentos que automatizamos, como é o caso de dirigir ou pilotar. Como também atividades e movimentos relacionados ao planejamento e a processos motivacionais e emocionais. É algo que acontece sempre que um bloco de comportamento começa ou termina. Os estudos da neurociência identificaram também que hábitos operam com base em loops neurológicos, compostos em três partes, que são:
1.Deixa ou gatilho: motivação que age como um despertador para uma dada ação;
2.Rotina: ação praticada em série, em busca de uma recompensa;
3.Recompensa: é a gratificação do ato em si. Com o passar do tempo, colabora para que o cérebro repita a ação esperando por determinado resultado.
Conhecer o complexo funcionamento cerebral, os gânglios basais, a existência dos loops neurológicos torna-se muito importante, porque demonstra que assim que um hábito surge, o cérebro para de participar totalmente da tomada de decisões. Ele para de fazer tanto esforço, ou desvia o foco para outras tarefas. A não ser que você deliberadamente lute contra um hábito para encontrar novas rotinas, o padrão irá se desenrolar automaticamente. Cabe destacar que os hábitos não são inevitáveis, eles podem sim ser alterados, ignorados ou substituídos por outros hábitos. E ficam mais fáceis de controlar ao compreendermos como os hábitos funcionam e como é a estrutura do loop do hábito. É de vital importância destacar que os hábitos por si só jamais desaparecem de fato, pois estão intrinsecamente codificados nas estruturas cerebrais. Isso é uma enorme vantagem para nós, pois seria um desperdício de tempo e muito cansativo se tivéssemos que reaprender a dirigir ou andar de bicicleta, depois de um certo tempo sem dirigir ou andar de bicicleta. Estaríamos incessantemente tendo que aprender e reaprender certas tarefas básicas. No entanto, nos deparamos com um grande dilema, pois o nosso cérebro não sabe a diferença entre os hábitos ruins e os hábitos bons. Portanto, se você tem um hábito ruim, ele estará sempre ali à espreita, esperando os gatilhos e recompensas certas, no momento certo. Da mesma maneira que seus hábitos bons, acompanharão você para onde você for, bastando apenas serem acionados pelo loop neurológico. Como os hábitos não desaparecem, isso por si só acaba tornando-se um grande dificultador quando queremos alterar um hábito. Sair do sedentarismo para iniciar a prática física, deixar os fast-foods para alimentar-se de forma mais saudável, como também simples hábitos como a leitura ou ainda levantar da cama e arrumá-la, organizar a casa, os armários. Porque uma vez que adquirimos um hábito de assistir TV ao invés de sair para fazer exercícios físicos, ou organizar a casa, de se alimentar de maneira não muito saudável; esses padrões persistem para sempre nos nossos cérebros. Porém, de acordo com essa mesma regra, se aprendermos a gerar novas rotinas neurológicas mais poderosas que esses comportamentos, tomando as rédeas da situação, assumindo o controle do “loop do hábito”, forçaremos essas tendências nocivas que não nos impulsionam para uma melhor qualidade de vida, a permanecerem em segundo plano. E com isso geraremos hábitos novos e mais congruentes com a nossa necessidade, o nosso momento atual, com o nosso desejo e estilo de vida.
A neurociência através de inúmeros estudos já confirmou inclusive que uma vez que o indivíduo cria um novo padrão; sair para se exercitar, arrumar a casa, alimentar-se de forma mais saudável se torna tão rotineira quanto qualquer outro hábito. Porém, há necessidade que isso seja feito de maneira constante, repetitiva. Não é em uma ou duas vezes que você arruma o seu quarto ou sai para fazer exercícios físicos que já estabelece o novo hábito. Os estudos provaram inclusive que é possível desenvolver e fazer novas escolhas inconscientes sem ter nenhuma lembrança da lição ou da tomada de decisão. E mesmo não lembrando da experiência que criou um determinado hábito, uma vez que o hábito está instalado dentro do cérebro, ele influenciará o modo como agimos muitas vezes sem percebermos. Hábitos tanto quanto a razão e a memória, são a raiz do nosso comportamento. O gatilho, a deixa, pode ser quase qualquer coisa, desde um estímulo sensorial, visual, até um determinado local, uma emoção, uma sequência de pensamentos ou determinadas companhias que convivemos. As recompensas podem variar desde drogas e comidas que causam sensações físicas, até compensações emocionais que causam acolhimento, amparo, autocongratulações, elogios e orgulho. Hábitos são extremamente delicados, poderosos e complexos. Podem surgir a nível consciente quando arquitetados deliberadamente ou inconscientemente. Muitos surgem sem a nossa permissão, mas podem sim ser remodelados quando nos damos conta do hábito e trabalhamos nele para operar uma nova mudança a qual desejamos. Eles dão forma a nossa vida muito mais do que percebemos. São extremamente arraigados e fortes que nossos cérebros se agarram a eles, a despeito de todo o resto e inclusive do discernimento. Por isso, da próxima vez que desejar mudar um determinado hábito, saiba que não basta querer mudar, terá que haver um grande empenho da sua parte para que determinado hábito se enfraqueça e um novo hábito, mais funcional, seja instaurado no lugar. Mas é perfeitamente possível com a sua dedicação, força e muita vontade. Tendo esses ingredientes, saiba que você consegue!
Grande abraço,
Psicóloga Maria Luiza de Mello Nigro – CRP:08/05850.
